Crise Alimentar no Sul de Angola - Amnistia Internacional Portugal

Exposição virtual - Crise alimentar no sul de Angola

Há um ano, a par com o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, lançámos o relatório “O fim do paraíso do gado: como o desvio de terras para explorações pecuárias minou a segurança alimentar nos Gambos”, que mostrava que a fome e subnutrição eram uma realidade no sul de Angola. Quatro dias depois, no dia 21 de outubro, partimos para o terreno, para dar a conhecer ao mundo a situação em que estas comunidades vivem. Infelizmente, um ano depois, esta realidade não mudou.

Milhares de criadores de gado de pequenas comunidades nas províncias do Cunene, da Huíla e do Namibe, no sul de Angola, têm sido afastados de terras que ocupavam há centenas de anos, para dar lugar a grandes explorações pecuárias. O resultado é uma grave crise alimentar naquela região, sem adequadas medidas de assistência ou compensação por parte do governo.

O relatório expõe a crise alimentar que está a assolar as comunidades pastorícias dos Vanyanekes e Ovahereros e explica as razões por detrás desta realidade. Terras que eram usadas durante séculos como pastagens comunitárias foram retiradas às comunidades sem que tivesse sido iniciado o devido processo legal e sem qualquer assistência ou compensação do governo.

As explorações pecuárias acabaram por ocupar dois terços das melhores pastagens na Tunda dos Gambos e no Vale de Chimbolela. A área que ocupam é conhecida como a “região leiteira” de Angola, porque a criação de gado e a produção de leite têm sido fulcrais para a economia e o modo de vida das populações. Agora, por causa disso, tudo mudou.

Nestas imagens guardam-se histórias que é preciso contar e não deixar esquecer.

Veja a exposição e, no final, junte-se a este apelo e assine a petição pelos milhares de pessoas em risco de vida no sul de Angola.

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Na altura da seca só os terrenos mais férteis ficam com água. As comunidades tradicionais precisam agora de cavar poços fundos nos leitos secos dos rios até encontrar água, uma vez que esses terrenos lhes foram retirados.

As mulheres percebem a importância da água como ninguém. São elas que cuidam diariamente da higiene dos filhos, de cozinhar para a família, de lhes dar de beber, enquanto os homens estão a tentar encontrar pasto para o gado. Às crianças cabe a tarefa de ajudarem as mães, quando o trabalho delas, como as do mundo inteiro, deveria ser ir à escola, aprender e brincar.

Sem leite, a população tenta encontrar formas alternativas para sobreviver. Uma delas é vender lenha na cidade mais perto, a pelo menos dez quilómetros a pé.

Nas comunidades que visitámos encontrámos sobretudo mulheres e crianças, porque os homens saem com o gado na esperança de encontrar pastagens para lhes dar alimento.

Queijo, iogurte e carne são coisas do passado e há mesmo quem tenha de comer folhas selvagens, o que causa problemas de saúde, como vómitos e diarreia. As marcas de subnutrição são evidentes, e o olhar cansado fruto da falta de alimento e de esperança.

Esta é uma região fértil, mas as fontes de água ficaram nas terras que foram usurpadas e entregues a fazendeiros. Para as comunidades locais ficaram zonas como estas. É um lago seco, sem uma gota de água.

Deixámos Angola com uma promessa. Dissemos a todas estas pessoas que o mundo está atento ao que se passa com elas e prometemos continuar a mostrar os seus rostos e a contar as suas histórias. Vamos continuar a dar-lhes voz.

Junte o seu nome

Assine a petição pelos milhares de pessoas em risco de vida no sul de Angola.

Angola é um dos países que conhece de perto o efeito das alterações climáticas, já que as populações das três províncias mais a sul (Cunene, Huíla e Namibe) viram o efeito das secas cíclicas se agravarem nos últimos quatro anos.
Pode ler o texto completo do nosso apelo, aqui.