23 Fevereiro 2026

por Victor Nogueira

 

Recebi há dias a notícia da morte do Miguel Ângelo Jardim. À maioria dos membros da Amnistia Internacional Portugal este nome pouco ou nada dirá – afinal a secção portuguesa da AI já tem 45 anos e o Miguel, um dos seus fundadores estaria afastado da militância activa há bem mais de trinta. Mas para mim esta foi a enorme perda de um grande amigo e de uma das pessoas mais inspiradoras que conheci na Amnistia, além de ter sido quem me trouxe para esta “Conspiração de Esperança”.

Conheci o Miguel em 1979, tinha ele vinte anos, trabalhava como segurança num Centro Comercial perto do Saldanha e estudava na Faculdade de Direito. Era um jovem radical vindo de Moçambique com uma qualquer anterior ligação à Frelimo. Ficámos amigos desde que nos conhecemos, o Miguel era uma pessoa extremamente comunicativa, dialogante e fraternal, inteligente, estudioso, intelectualmente inquieto e preocupado com as injustiças, as desigualdades e as guerras. Ambientalista, pacifista, animou organizações de objectores de consciência e convivia com diferentes tipos de marginalizados e perseguidos políticos – cheguei a conhecer alguns dissidentes russos amigos dele, bem antes da Queda do Muro. Também tinha profundas convicções religiosas, sendo ele o primeiro Menonita que conheci – os menonitas são uma seita defensora do primitivo cristianismo das catacumbas, profundamente comunitário, ramo minoritário dos protestantes anabaptistas.

Um dia o Miguel fez questão de me apresentar o João Freire e o Emídio Santana para um almoço a quatro em que fui informado sobre o que se estava a fazer para trazer a Amnistia Internacional para Portugal — ou seja, criar uma secção portuguesa da AI. Eu pouco ou nada sabia sobre a AI, para além do respeito e admiração que tinha como organização que defendia presos políticos que combatiam tiranias. Por sinal eu até tinha anos atrás abordado informalmente uma responsável que aqui esteve numa conferência para denunciar a situação do nacionalista angolano Gentil Viana, então preso em Luanda.

Naturalmente fiquei entusiasmado e interessado sobre essa possibilidade, mas ele só me voltou a contactar meses depois desse almoço, já após a realização da Assembleia Geral fundacional e da visita a Portugal do então Secretário-Geral da AI, o sueco Thomas Hammarberg, que incluiu mesmo uma apoteótica recepção na AR com todas as bancadas a aplaudi-lo de pé — parece impossível nos dias de hoje um agradecimento público tão expressivo. E desafiou-me para que eu aderisse, ainda em 1981, ao então designado Grupo de Adopção n.º 2, um dos dois Grupos (Locais) fundadores da AI Portugal, de que ele era Coordenador e que reunia em casa de uma amiga comum, na Lapa. Entretanto, o Miguel Jardim, que andava ocupado na Direcção deixou o trabalho de base e eu sucedi-lhe na coordenação — a minha casa passou a ser o local das reuniões, até eu deixar o Grupo que passou a ser coordenado por José Manuel Cabral, futuro Presidente, também já desaparecido.

A primeira Direcção eleita passava entretanto por divergências e dificuldades internas, tendo caído após a demissão de alguns dos seus membros, incluindo o seu Presidente e ex-exilado político José Baptista tendo sido eleita uma nova direcção para completar o mandato dirigida, a ser presidida pelo anterior Vice-Presidente Simões Monteiro. O Miguel Jardim, sabedor dos meus activismos antigos e de alguma experiência associativa, convidou-me para a Direcção, tendo eu sido eleito Vice-Presidente em 1982 e Presidente em 1983, tendo-me sucedido o Miguel Jardim em 1988 — mas não chegou a cumprir a totalidade do seu mandato como Presidente porque sectarismos e divergências internas levaram à queda da direcção e a uma Comissão Administrativa.

O Miguel foi-se progressivamente afastando da Amnistia, abandonou Direito, aprofundou os seus estudos evangélicos, tornou-se Pastor, viajou muito, em particular no Leste europeu pós-Guerra Fria. Víamo-nos pouco, mas cada reencontro era uma festa. Ainda discuti com ele as suas preocupações com os impactes da Globalização, que me pareceram uma deriva de cariz identitário muito pouco cosmopolita. Infelizmente ficaram por esclarecer essas divergências: um AVC fulminante deixou o Miguel hemiplégico e confinado a um Lar na província e eu, apesar de tentar, nunca mais o vi. Não tentei o suficiente, com toda a certeza. E agora soube da perda desse Amigo. Adeus, Miguel.

 

Victor Nogueira foi Presidente da Direcção da AI Portugal (1983/88, 1990/96 e 2012/15)

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