30 Abril 2024

por Pedro A. Neto, diretor executivo da Amnistia Internacional - Portugal, para o Sete Margens

Na madrugada do domingo 14 de abril fomos surpreendidos com a notícia de um ataque do Irão a Israel, feito com centenas de mísseis e drones. As imagens no céu escuro lembravam fogo de artifício. Mas ali, o artifício era o da cobardia, dos dois lados, sem pudor em fazer escalar uma violência de orgulho que não afetará governantes, nem do Irão, nem de Israel. Afetará antes os seus povos, os inocentes.

O exercício de ver onde começou tudo isto é já quase inútil. Todos os beligerantes perderam a razão. Este ataque do Irão foi uma resposta a um ataque prévio israelita ao consulado iraniano na Síria. Porém, o governo de Israel não reconhece que o fez. Uns atacam outros, em resposta há mais ataques. O ataque do exército de Israel a arrasar a Faixa de Gaza, foi também na narrativa dos que fazem a guerra, a resposta ao ataque horrível do Hamas a 7 de outubro a Kibutz israelitas. O Hamas atacou porque Israel oprime e ataca. Há sempre justificação para a violência na boca dos mais covardes. E assim temos vivido, ataques em resposta a ataques, num ciclo de violência que se vai repetindo em dinâmica de ação e reação, numa lógica de violência que gera violência. O sofrimento humano desta tragédia já não é calculável.

“O sofrimento humano desta tragédia já não é calculável”

No ataque do Irão sobre os céus de Israel com centenas de mísseis e drones, ouvimos nas notícias que apenas alguns chegaram ao chão. Ainda assim, danificaram infraestruturas militares e feriram uma criança.

Mais nada. Amina al-Hassouni é uma menina palestiniana beduína de apenas sete anos. Foi ela a criança ferida durante os ataques das autoridades iranianas contra Israel no Negev/Naqab, uma região desértica no sul de Israel, um imenso corredor de areia e rochas que separam aquele país desde o Egito até olharmos o Sinai, desde o mediterrâneo até ao golfo de Aqaba. Nessas terras secas e áridas, há pelo menos 35 aldeias palestinianas beduínas que continuam a ser destituídas de reconhecimento formal. Tal como na Faixa de Gaza, estas famílias de ancestrais nómadas do deserto, é como se não fossem reconhecidas, como se fossem apátridas, sem lugar neste mundo moderno de Estados e fronteiras onde ainda não foram acolhidos.

“Tal como na Faixa de Gaza, estas famílias de ancestrais nómadas do deserto, é como se não fossem reconhecidas, como se fossem apátridas, sem lugar neste mundo moderno de Estados e fronteiras onde ainda não foram acolhidos”

Até quarta-feira 17 de abril, a criança de quem ninguém mais nada quis saber, continuava inconsciente no hospital de Soroka, em Beersheba. Não tenho notícias mais recentes sobre o estado da menina. Há duas semanas, as autoridades israelitas emitiram uma ordem para demolir a casa da sua família, no âmbito de uma campanha em curso para deslocar as comunidades beduínas, como parte do cruel sistema de apartheid do Estado de Israel sobre os palestinianos. A falta de sirenes, de rede para telemóveis, de abrigos adequados nestas comunidades sublinha a vulnerabilidade desproporcionada da população beduína a estes ataques, apontando para uma disparidade significativa na proteção e nos serviços que lhes são prestados.

As autoridades israelitas devem conceder imediatamente o reconhecimento legal e o estatuto a todas as aldeias não reconhecidas no Negev/Naqab, e também prestar-lhes serviços essenciais. A Amnistia Internacional tem apelado repetidamente às autoridades israelitas para que garantam a igualdade de proteção e de serviços a estas comunidades e para que ponham termo a todas as ordens de desalojamentos forçados e demolição. Pede ainda que este sistema de discriminação e apartheid seja desmantelado.

Uma criança ferida nos ataques. Alguns dos que fazem deste conflito um jogo e torcem pela Palestina pensaram ou assumiram que a menina poderia ser israelita e não se preocuparam. Os que torcem por Israel, talvez soubessem que era palestiniana e, por isso, também não se preocuparam. A menina de sete anos não foi notícia. A todos foi indiferente.

Que vergonha este mundo, que relativiza a vida de uma menina inocente com tanto ainda para viver. Que vergonha este mundo de políticos e supostos ativistas que têm preocupações seletivas no que toca à dignidade humana. A Amina, na sua ainda curta peregrinação pela Terra, já aprendeu que para fazer a paz é preciso muito mais coragem do que para fazer a guerra. Oxalá melhore e possa sobreviver a esta loucura hipócrita e sem sentido dos Homens que mandam no céu da sua terra.

“Para fazer a paz é preciso muito mais coragem do que para fazer a guerra”

*Este artigo foi originalmente publicado no Sete Margens.
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