Ciclone Idai: Um ano depois, milhares de pessoas continuam sem casa - Amnistia Internacional Portugal

13 Março 2020

Um ano depois da passagem do ciclone Idai, que teve efeitos devastadores em algumas partes de Moçambique, Malawi e Zimbabué, a Amnistia Internacional denuncia que dezenas de milhares de pessoas continuam sem acesso adequado a habitação e saneamento.

“Muitas das pessoas afetadas estão a enfrentar a pior face da crise climática. Mal conseguem sobreviver”

Tigere Chagutah, diretor-adjunto da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral

O apoio financeiro desajustado dos programas de recuperação da comunidade internacional e o ritmo lento dos esforços de reconstrução dos governos dos três países deixaram as populações afetadas em abrigos improvisados e, em alguns casos, isoladas, devido à condição das vias de comunicação. Além disso, há um risco real de contraírem doenças como cólera.

“Um ano depois de o ciclone Idai ter arrasado o Malawi, Moçambique e o Zimbábue, muitas das pessoas afetadas estão a enfrentar a pior face da crise climática. Mal conseguem sobreviver”, nota o diretor-adjunto da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral, Tigere Chagutah.

“Dezenas de milhares de pessoas ainda não têm casa, algumas vivem em abrigos fornecidos pela ONU e outras em estruturas improvisadas, sem acesso a saneamento básico e em risco de serem infetadas por cólera e outras doenças. As crianças não vão à escola e as instalações de saúde ainda precisam de ser totalmente reconstruídas. Dada a terrível situação dos países, os estados mais ricos – pelas responsabilidades que têm na crise climática – e os doadores multilaterais precisam de reforçar o seu compromisso e garantir que o dinheiro chega a quem precisa”, remata o mesmo responsável.

Problemas persistem em Moçambique

Menos de metade dos 450 milhões de dólares necessários para ajuda imediata e reconstrução no Zimbábue e em Moçambique chegou às comunidades afetadas pelo ciclone. No caso de Moçambique, o país mais atingido da África Austral, foi organizada uma conferência, em maio de 2019, para procurar apoios para que as novas infraestruturas construídas pudessem ter maior resistência a longo prazo. O evento terminou com a angariação de 1,2 mil milhões de dólares – menos de um terço do previsto.

Uma das áreas moçambicanas mais atingidas foi a província de Sofala. O acesso às estradas continua bloqueado, deixando as pessoas isoladas em abrigos comunitários e dependentes da assistência de agências da ONU e outras.

Na Beira, capital da província, houve surtos de doenças como cólera e malária, com milhares de infetados. Embora a Organização Mundial de Saúde tenha prestado assistência de emergência, incluindo vacinação, as autoridades moçambicanas devem construir uma infraestrutura de saúde adequada para dar uma resposta mais adequada no futuro. O principal hospital da cidade já foi reconstruído, mas muitas pessoas lutam por cuidados de saúde.

“Esta situação mostra por que é tão importante que os Estados concordem com um mecanismo internacional adequado, com dotação financeira, para apoiar pessoas cujos direitos foram afetados pela crise climática”

Tigere Chagutah, diretor-adjunto da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral

No Zimbábue, o segundo país mais atingido, muitas pessoas afetadas ainda vivem em tendas improvisadas. Os campos que surgiram após o ciclone são geridos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Na semana passada, durante um encontro regional sobre alterações climáticas, em Mutare, sobreviventes dos três países afetados disseram à Amnistia Internacional que perderam os meios de subsistência e continuavam a contar com ajuda para sobreviver.

Um dos problemas que continua a ser apontado, um ano depois da passagem do ciclone Idai, é a ausência de uma comunicação eficaz sobre o clima e a meteorologia, bem como a coordenação que deve existir entre as agências governamentais. As comunidades afetadas também pedem melhores mecanismos de partilha da informação, inclusivamente através de boletins comunitários e da rádio.

“O Malawi, Moçambique e o Zimbábue não podem arcar com os custos das perdas e dos danos causados ​​pelo ciclone Idai, e avançar com a reconstrução das infraestruturas e das vidas das pessoas. Esta situação mostra por que é tão importante que os Estados concordem com um mecanismo internacional adequado, com dotação financeira, para apoiar pessoas cujos direitos foram afetados pela crise climática”, aponta Tigere Chagutah.

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