China: Famílias de uigures desaparecidos procuram respostas - Amnistia Internacional Portugal

26 Abril 2019

por Patrick Poon, investigador para a China

Ver uma pessoa querida detida, indevidamente, é muito doloroso. Não saber onde está ou se continua mesmo viva é ainda mais difícil.

Centenas de uigures, cazaques e outros cidadãos chineses de etnia muçulmana que vivem fora do país estão a passar por isso mesmo. Tudo porque não sabem como estão os familiares que definham em campos de detenção política instalados pelo regime de Pequim.

Para piorar a situação, a busca desesperada por informações está a ser prejudicada por outros familiares que ainda estão na Região Autónoma Uigur de Xinjiang. Não é por rejeitarem ajudar, mas sim porque temem que cooperar signifique que são os próximos a serem enviados para os campos.

“Centros de transformação através da educação” é o eufemismo que o governo chinês utiliza para estas instalações. Quem se encontra ali detido recebe “formação vocacional”, ou seja, uma forma de ajuda para os seus “pensamentos radicais”.

“Não sei se ainda estão vivos ou que mais posso fazer para ter novas informações”

Alim, um uigir que vive na Austrália e procura o paradeiro de familiares

Medo de falar

Desde quando essa “formação” inclui a tortura e o abuso, tal como relataram vários ex-detidos e familiares?

Não sabemos a extensão do que acontece nos campos porque os programas de “reeducação”, bem como os locais onde se encontram, estão envoltos em sigilo. O que sabemos é que as pessoas temem serem enviadas para lá e a maioria que sobrevive ainda tem muito medo de descrever as experiências pelas quais passou.

“Não sei se ainda estão vivos ou que mais posso fazer para ter novas informações”, afirma Alim, um uigur que vive na Austrália. Os seus pais e outros familiares foram enviados para um campo de reeducação, em 2018. Desde então, nada sabe sobre eles.

A experiência de Alim é idêntica à que já ouvi de muitos uigures que vivem no Japão, na Austrália e na Nova Zelândia. Alguns desistiram de trabalhar para se concentrarem na busca de informações sobre a família que têm em Xinjiang. Contudo, outros elementos não estão sempre dispostos a ajudar.

Vários uigures que vivem no estrangeiro disseram-me que foram bloqueados no WeChat pelos parentes que vivem em Xinjiang. Esta é uma popular plataforma de comunicação na China. Em causa estava o medo de represálias caso falassem.

Quem vive fora da China também corre riscos. Muitos temem que possam ser deportados de onde se encontram, quando os passaportes ou os vistos expirarem, sendo, depois, detidos arbitrariamente quando regressarem à China.

Existem relatos de casos de deportação nos Emirados Árabes Unidos, no Egito, na Tailândia, no Paquistão, na Suécia e na Alemanha. Muitos uigures com quem conversei tinham muito medo de revelar onde estão. Alguns perguntaram-me, nervosamente, se eu era chinês e apenas concordaram em falar quando expliquei que sou chinês de Hong Kong.

O nível de desconfiança e suspeição é tal que as pessoas que vivem no Japão disseram-me que não falavam com uigures da sua comunidade por medo de serem informadores das autoridades chinesas.

Há quem tenha sido libertado dos campos de detenção na China. Mas o dano está lá, mesmo para as famílias que voltaram a estar juntas.

Em setembro de 2018, encontrei-me com um grupo de cazaques em Almaty, no Cazaquistão, cujos familiares foram detidos em Xinjiang. Desde então, deram-me boas notícias. Muitos dos seus entes queridos foram libertados. No entanto, ficaram chocados ao ver que regressaram completamente diferentes.

Muitos estão assustados, desorientados e sofrem de perda de memória. A maior parte tem muito medo de dizer o que quer que seja sobre o que aconteceu nos campos. Este é o aparente efeito da “formação vocacional”.

Esperança em voltarem a estar juntos

Neste clima de medo, os uigures que fora da China procuram os familiares estão gratos pelos mais pequenos sinais de apoio. Um só tweet de um estranho sobre a situação da sua família despertará a esperança de que o caso receba mais atenção. Um tweet também serve outro propósito: faz com que essas pessoas desesperadas sintam que não estão sozinhas.

Recentemente, alguns uigures que vivem no estrangeiro participaram na campanha online #MetooUyghur. Para muitos, a simples utilização deste hashtag representou uma decisão difícil e corajosa.

Outros contactaram organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional. O vazio de informação em Xinjiang é tão grande que aqueles que procuram os seus familiares sabem que não podem fazê-lo sozinhos.

Apesar de todo o medo, há quem tenha começado a partilhar as suas histórias. Uma vez que os monitores independentes de direitos humanos continuam a não ter acesso a Xinjiang, estes testemunhos são importantes para dar conta das violações sistemáticas e grosseiras dos direitos humanos cometidas pelo governo chinês.

Todos aqueles que contam a sua história assumem um risco, mas cada voz é crucial para derrubar o muro de silêncio em torno do que está a acontecer em Xinjiang. É um primeiro passo corajoso para reunir as famílias que foram separadas.

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Cerca de um milhão de detidos no Xinjiang, China

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