Bielorrússia: Desporto como campo de batalha para repressão e retaliações - Amnistia Internacional Portugal

4 August 2021

Muitos atletas bielorrussos, uma vez vistos como heróis nacionais, sacrificaram as suas carreiras e liberdade, ao pronunciarem-se contra as violações de direitos humanos no seu país, referiu a Amnistia Internacional num novo briefing, que faz parte da sua campanha #StandWithBelarus. Prova disso é o recente caso de Krystsina Tsimanouskaya, atleta olímpica bielorrussa, que pediu asilo na embaixada da Polónia em Tóquio, depois de as autoridades bielorrussas terem tentado fazê-la regressar à força ao seu país.

Os atletas entrevistados pela Amnistia Internacional afirmaram que foram escolhidos para serem punidos, uma vez que o desporto é particularmente importante para Alyaksandr Lukashenka, presidente bielorrusso e jogador amador de hóquei no gelo que, até dezembro de 2020, dirigiu pessoalmente o Comité Olímpico Nacional bielorrusso.

“A administração desportiva da Bielorrússia tem estado sujeita ao controlo direto do governo de Alyaksandr Lukashenka. Os atletas são favorecidos pelo Estado e honrados pela sociedade, por isso, não é surpreendente que aqueles que se pronunciem sejam constituídos alvos para retaliações”, mencionou Heather McGill, investigadora da Amnistia Internacional para a Europa Oriental e Ásia Central.

“A administração desportiva da Bielorrússia tem estado sujeita ao controlo direto do governo de Alyaksandr Lukashenka”

Heather McGill

Em agosto de 2020, mais de 1.000 atletas assinaram uma carta aberta, apelando a novas eleições, ao fim da tortura e outros maus-tratos, e ao término das detenções de manifestantes pacíficos. A retaliação do governo não tardou a chegar.

De acordo com a Sports Solidarity Foundation – uma ONG criada para apoiar atletas que sofrem retaliações devido às suas opiniões políticas -, 95 atletas foram detidos por participarem em protestos pacíficos, sete deles foram acusados de ofensas políticas pela sua oposição pacífica ao governo, e 124 sofreram outras formas de repressão como, por exemplo, o caso de 35 atletas e treinadores que foram retirados da equipa nacional.

Nos últimos dois anos, Alyaksandra Herasimienia, atleta que três vezes conquistou medalhas olímpicas, dirigia escolas de treino de natação para crianças bielorrussas, depois de ter deixado a competição. Quando se sentiu na obrigação de se pronunciar nas redes sociais, viu-se confrontada com um dilema:

“Tive a opção de falar ou ficar em silêncio. Nós alugamos piscinas do Estado para realizar as nossas aulas. Todas as piscinas são estatais na Bielorrússia e, por isso, compreendi que se eu falasse, os meus colegas iriam sofrer e as crianças também. No início, não sabia o que fazer, mas dias mais tarde, percebi que não poderia ficar calada”, recorda, ao partilhar o seu testemunho com a Amnistia Internacional. Numa questão de dias, Alyaksandra perdeu todos os seus contratos com piscinas na Bielorrússia.

“Nós alugamos piscinas do Estado para realizar as nossas aulas. Todas as piscinas são estatais na Bielorrússia e, por isso, compreendi que se eu falasse, os meus colegas iriam sofrer e as crianças também. No início, não sabia o que fazer, mas dias mais tarde, percebi que não poderia ficar calada”

Alyaksandra Herasimienia, atleta bielorrussa

Alyaksandra passou a chefiar a Sports Solidarity Foundation, que tem feito lobby junto do Comité Olímpico Internacional para exigir a substituição de Alyaksandr Lukashenka como chefe do Comité Olímpico nacional, e tem assegurado que vários eventos desportivos internacionais se realizem fora da Bielorrússia.

A 2 de abril de 2021, o Comité de Investigação bielorrusso anunciou que tinha aberto um processo penal contra Alyaksandra Herasimienia e Alyaksandr Apeykin, o diretor da Sports Solidarity Foundation. Foram acusados de “incitar ações destinadas a prejudicar a segurança nacional da Bielorrússia”, um crime punível com pena de prisão até sete anos.

Yelena Leuchanka, uma das atletas mais conhecidas da Bielorrússia, bicampeã olímpica de basquetebol, reconheceu ser necessário e urgente falar sobre o que estava a acontecer no país, tendo assinado a carta aberta e partilhado as suas opiniões nas redes sociais. A 30 de setembro de 2020 foi presa no aeroporto de Minsk quando estava prestes a partir para a Grécia para tratamento de uma lesão desportiva. Passou 15 dias no conhecido centro de detenção de Akrestsina, em Minsk, e relatou à Amnistia Internacional que a sua cela tinha sido escolhida para tratamento particularmente severo:

“Na primeira noite tivemos colchões, água e a sanita lavados, mas dois dias depois tudo mudou. Nesse dia, após o pequeno-almoço, um guarda entrou e mandou-nos enrolar os nossos colchões… inicialmente pensámos que tinham retirado os colchões para os arejar e para se livrarem das pulgas e dos percevejos, mas nunca nos devolveram”.

Yelena passou 15 dias numa cela para quatro pessoas, a maior parte do tempo com cinco ocupantes. Forçados a dormir sobre as estruturas metálicas das camas, tentaram aliviar o desconforto com roupas, jornais e pensos higiénicos. Foi-lhes dito pelo diretor do centro de detenção que era deliberado “assegurar-se de que não quereriam ali regressar”.

“Os desportistas bielorrussos pagaram um preço elevado pela coragem de se pronunciarem e apelamos a todos para que se mostrem solidários com eles, juntando-se à nossa ação”

Heather McGill

“Os desportistas bielorrussos pagaram um preço elevado pela coragem de se pronunciarem e apelamos a todos para que se mostrem solidários com eles, juntando-se à nossa ação. A 9 de agosto, a Fundação do Desporto da Bielorrússia está a lançar a sua maratona online de apoio aos seus atletas, e encorajamos todos a mostrarem-se solidários com os atletas bielorrussos perseguidos”, disse Heather McGill.

 

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