5 Outubro 2018

Sempre que Soraya, de 24 anos, fecha os olhos, as imagens são tão vívidas como se tudo se tivesse passado ontem.

A água gelada. O bote pequeno e instável. O filho dela a vomitar, quase incapaz de se mover no meio das dezenas de pessoas que também ali arriscavam as vidas pela noite dentro.

“Digo sempre ‘bravo!’ a mim mesma por ter atravessado o mar, porque queria construir um futuro melhor para os meus filhos”, conta esta mulher afegã que se fez ao mar Egeu, com o marido e os filhos, para chegar à Europa.

As memórias de Soraya são em tudo semelhantes às de milhares de outras mulheres e raparigas que fogem de perseguição e de conflitos armados e enfrentam as extremamente difíceis viagens até à Grécia.

Conversámos com ela num centro para mulheres refugiadas e migrantes em Atenas, na Grécia, enquanto Soraya embalava no colo a filha Mohana, de um ano, já nascida em território grego.

Soraya tem esperança de conseguir instalar-se em segurança com a família num país bem longe do Afeganistão natal. Sabe que tem ainda dias duros pela frente. Mas a perigosa viagem que fez e a batalha quotidiana para manter os três filhos em segurança ensinaram-lhe também a jamais subestimar a sua própria força.

Este testemunho e o de outras 100 mulheres e raparigas refugiadas na Grécia estão documentados no novo relatório da Amnistia Internacional, “‘I want to decide my future’: Uprooted women in Greece speak out” (“Quero decidir o meu próprio futuro”: mulheres refugiadas na Grécia fazem-se ouvir), emitido esta sexta-feira, 5 de outubro.

Campos sobrelotados e sem segurança

Sobrelotação severa e condições de vida terríveis estão a tornar os campos de refugiados na Grécia em lugares extremamente perigosos para todas as pessoas, especialmente nas ilhas.

As mulheres e as crianças e as pessoas em fuga de perseguição devido à sua orientação sexual ou identidade de género estão ainda mais expostas a riscos de segurança e de proteção.

“Não me sinto segura nem confortável na tenda com… estranhos. Saio do campo bem cedo de manhã e só volto depois à noite”, conta-nos Maysa*, de 25 anos, oriunda da Síria, quando com ela falámos no campo Vathy, em Samos.

“Não me sinto segura nem confortável na tenda com… estranhos. Saio do campo bem cedo de manhã e só volto depois à noite.”

Maysa, refugiada síria na Grécia

Este campo foi concebido para acolher 640 pessoas, mas está atualmente sobrelotado com mais de 3 800, a maioria a viver em pequenas tendas.

Desde março de 2017, a Amnistia Internacional entrevistou mais de 100 mulheres e raparigas que fugiram dos seus países de origem e vivem agora em campos e apartamentos nas ilhas gregas ou na Grécia continental.

Com medo demais para tomar um duche

Estas testemunhas descrevem que atividades quotidianas como tomar um duche ou ir à casa-de-banho se tornaram em missões de risco, uma vez que muitas das instalações existentes nos campos não têm trincos. Além disso, não há duches nem sanitários suficientes na área destinada exclusivamente às mulheres naquele campo de Samos. E a parca iluminação no local faz com que tarefas simples como ir buscar água ou deslocar-se dentro do campo à noite seja arriscado e cause profunda ansiedade.

“[O] chuveiro no campo é de água fria e a porta não tem fecho. Os homens entram quando estamos lá dentro. Não há lâmpadas nos sanitários. À noite, às vezes vou à casa-de-banho com a minha irmã ou urino num balde”, explica Adéle*, que vive também no campo Vathy, em Samos.

“[O] chuveiro no campo é de água fria e a porta não tem fecho. Os homens entram quando estamos lá dentro. Não há lâmpadas nos sanitários.”

Adéle, refugiada na Grécia

Muitas das mulheres que vivem nestas condições horríveis continuam a tentar lidar com os traumas de abusos passados. Para estas mulheres, a insegurança e os perigos que enfrentam na Grécia são uma lembrança constante da violência de que tentaram escapar.

“As pessoas refugiadas precisam de proteção. Se o Governo grego não consegue cuidar de nós, que nos deixe partir. Não nos mantenham aqui”, exorta Yvette*, oriunda dos Camarões e com quem conversámos no campo de Moria, em Lesbos.

“Não quero que ninguém saiba sobre mim”

Mulheres que foram perseguidas nos seus países de origem devido à sua orientação sexual ou identidade de género reportaram-nos que se sentem em ainda maior risco.

Simone*, lésbica de 20 anos, partiu do país natal após ter sido alvo de violência, incluindo violação. Contou-nos que seus familiares a espancaram fortemente quando descobriram que ela é lésbica. E em Samos, esta mulher viu que continua em risco.

“Sinto-me muito nervosa aqui porque partilho um contentor com quatro homens que não conheço. Não quero que ninguém saiba sobre mim.”

Simone, refugiada lésbica na Grécia

“Sinto-me muito nervosa aqui porque partilho um contentor com quatro homens que não conheço. Não quero que ninguém saiba sobre mim. Passo os dias todos fora do campo e só regresso à noite, mas não consigo dormir”, avança ainda Simone.

Viver aterrorizada

Desde 20 de março de 2016 que não é permitido aos requerentes de asilo chegados às ilhas gregas deslocarem-se para o território continental do país. Esta medida resulta do acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia – o designado acordo UE-Turquia – segundo o qual aquelas pessoas devem ser transferidas de volta para a Turquia.

Quem tem reivindicações de reunificação familiar, na sua maioria sendo mulheres ou pessoas consideradas “vulneráveis” pela lei grega, deve estar desobrigada de permanecer nas ilhas. Em teoria teria de ser rapidamente transferida para a Grécia continental.

Mas a realidade é muito diferente. Responsáveis e pessoal médico nos campos nem sempre têm as competências necessárias nem o tempo que é preciso para identificar quem deve ser deslocado para o território continental grego. E até quando as pessoas são devidamente identificadas, têm de esperar vários meses até que seja encontrado espaço para ali as instalar.

A vida na Grécia continental também é difícil para quem busca refúgio.

Mulheres e raparigas com que nos encontrámos no campo Skaramagas, nos arredores de Atenas, estavam visivelmente angustiadas. Muitas amedrontadas, especialmente em relação às noites, como nos foi relatado por uma mulher síria: “Passo a maior parte do tempo no contentor porque não me sinto em segurança. Há muito álcool no campo e lutas todos os dias. Nunca saio à noite e não deixo os meus filhos sozinhos no exterior, mesmo que seja por perto. A polícia não intervém. Não querem saber o que se passa aqui. Ninguém nos protege”.

Relutância e temor em apresentar queixa

Em 2017, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR, UNHCR na sigla em inglês) recebeu relatos de 622 sobreviventes de violência de género que se encontram sem saída nas ilhas gregas. Em quase 30% destes casos a violência foi cometida depois de a pessoa ter chegado à Grécia. De todos os incidentes registados pela agência das Nações Unidas no país durante a segunda metade do ano, 80% dos sobreviventes são mulheres.

E, apesar de estes números serem já profundamente alarmantes, a realidade é muito provavelmente ainda pior, uma vez que a violência sexual é largamente subnotificada por numerosas razões. Muitas mulheres e organizações que prestam apoio nestes casos reportaram à Amnistia Internacional que as mulheres têm forte relutância em apresentar queixas formais devido ao estigma social a isso inerente, devido ao medo de sofrer represálias por parte de quem as atacou, por falta de confiança no sistema de proteção ou porque creem que ficarão encurraladas na Grécia se denunciarem a violência de que foram alvo.

“Não consigo adormecer e ainda tenho muitos pesadelos por causa do que me aconteceu.”

Abigail, refugiada camaronesa na Grécia

A insuficiência de recursos e de funcionários especializados nos campos também se traduz em que quem sobrevive a violência de género não é devidamente identificado e, por isso, não recebe a proteção de que precisa.

Abigail*, dos Camarões, fugiu para Istambul para escapar a violência doméstica, abusos sexuais e ameaças de morte por parte do marido. Em Istambul, conseguiu trabalho numa sweatshop, onde foi abusada sexualmente pelo empregador. Um traficante ajudou-a a atravessar o mar Egeu. Quando nos encontrámos com ela, esta camaronesa vivia numa pequena tenda em Samos.

“Não consigo adormecer e ainda tenho muitos pesadelos por causa do que me aconteceu”, conta.

Medidas insuficientes para proteger sobreviventes

Em junho de 2017, várias autoridades gregas a nível nacional e local assinaram um protocolo para coordenar a prestação de proteção a refugiadas e requerentes de asilo que sobreviveram a violência de género.

Esta iniciativa inclui a coordenação da identificação e apresentação dos casos aos 40 centros de aconselhamento de mulheres e aos 21 abrigos tutelados pelo Estado para todas as mulheres sobreviventes de violência na Grécia, incluindo as cidadãs gregas.

É um passo na direção certa, mas o impacto do protocolo continua a ser muito limitado. Os abrigos podem ser um salva-vidas para as mulheres que são sujeitas a violência física e psicológica, porém nem sempre estão devidamente dotados de tradutores e dos serviços necessários para dar assistência a mulheres refugiadas.

Ao fim de dez meses a viver em abrigos, Ava*, do Afeganistão, viu ser-lhe solicitado que partisse do local, o que a deixou sob enorme pressão.

“Eu consegui encontrar algo [onde me alojar] mas e o que acontece a outras?”, questiona.

Uma das claras reivindicações feitas por Ava e por outras mulheres refugiadas com que a Amnistia Internacional conversou na Grécia é a de que as sobreviventes de violência carecem de muito melhor proteção.

As autoridades gregas têm de aumentar o número de funcionários adequadamente treinados nos campos de receção e nas zonas urbanas, capazes de identificar e prevenir a violência contra as mulheres.

Têm também de garantir que as mulheres que se encontram em risco podem ficar alojadas nos abrigos até que se sintam em segurança e tenham meios para começar uma nova vida.

Ava continua preocupada com o destino de uma outra mulher que conheceu no abrigo. “No mesmo dia que [o pediram] a mim, a uma mulher com três filhos foi também solicitado que partisse. O que é que ela irá fazer? Continuo preocupada com ela”.

*os nomes destas testemunhas foram alterados para proteção de identidade

Recursos

  • 230 milhões

    230 milhões

    Mais de 230 milhões de pessoas vivem fora do país em que nasceram – o que corresponde a cerca de 3% da população mundial global.
  • 14,2 milhões

    14,2 milhões

    No final de 2013 estimava-se que havia cerca de 14,2 milhões refugiados no mundo.
  • 10 milhões

    10 milhões

    Estima-se que 10 milhões de pessoas em todo o mundo são consideradas "apátridas" – nenhum país as reconhece como nacional.
  • 33,3 milhões

    33,3 milhões

    Cerca 33,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas permanecendo dentro do seu próprio país (deslocados internos).

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