27 Dezembro 2022

 

  • Crianças impedidas de frequentar a escola
  • Escassez de alimentos
  • Impossível aquecer as casas durante períodos de temperaturas gélidas
  • Risco de incêndio em casas durante surtos de energia
  • Restrições no acesso aos cuidados de saúde

Os contínuos ataques das forças armadas russas contra as principais infraestruturas energéticas da Ucrânia são uma grave violação do direito internacional humanitário e colocam em risco a vida de civis, devido às baixas temperaturas. A Amnistia Internacional apela novamente à Rússia para que cesse os seus ataques ilegais contra as infraestruturas civis do país.

“Ao contrário de tantos países pelo mundo que celebram este período festivo com as suas ruas cobertas de luzes de Natal, a Ucrânia permanece sob escuridão pelos ataques sustentados, deliberados e ilegais da Rússia às suas infraestruturas energéticas”, revela Denis Krivosheev, diretor adjunto da Amnistia Internacional para a Europa Oriental e Ásia Central.

“Os civis ucranianos não só têm de suportar a trágica perda de vidas infligida pelo ato de agressão da Rússia, como também estão a sofrer as consequências das suas táticas criminosas, especificamente concebidas para aumentar o sofrimento humano”.

“[Os civis ucranianos] estão a sofrer as consequências das suas táticas criminosas, especificamente concebidas para aumentar o sofrimento humano”

Denis Krivosheev

Há meses que os ataques da Rússia contra as principais infraestruturas energéticas da Ucrânia estão a impedir os civis ucranianos de aceder à educação, aos cuidados de saúde e à alimentação, enquanto forçam a população a enfrentar temperaturas gélidas nas suas próprias casas. A Amnistia Internacional falou com pessoas de toda a Ucrânia, que detalharam o impacto dos ataques da Rússia na sua vida quotidiana.

 

Falhas de energia impedem prestação de cuidados de saúde

Olena* partilhou à Amnistia Internacional que se atravessam períodos de longa espera por cuidados médicos devido à ininterrupção dos ataques: “Temos ataques aéreos constantes. Neste momento, está um a decorrer. Quando há um ataque aéreo, nenhuma instituição que preste serviços de saúde (como clínicas e hospitais privados), lojas ou transportes públicos, podem funcionar”.

No dia de um ataque, Olena tinha uma consulta com o seu filho para um check-up geral e vacinas, mas a clínica telefonou-lhe, advertindo-os para não se deslocarem. Teve de esperar mais de um dia após a data marcada para a sua consulta.

As falhas de energia, além de restringirem as consultas de rotina, fazem com que os procedimentos cirúrgicos sejam realizados sobm condições de risco de vida. Kateryna* referiu à Amnistia Internacional que temia queos apagões interferissem com a sua consulta cirúrgica: “Fui a uma cirurgia programada, onde era necessária a utilização de um máquina laser. O médico disse-me que iriam tentar fazê-la rapidamente. Eu estava receosa no momento”.

 

Perturbação da escolaridade coloca direito à educação em risco

Faltar às aulas pode ter um severo impacto no progresso académico de uma criança. Os atuais cortes de energia na Ucrânia significam que várias crianças não podem frequentar a escola, quer presencialmente, quer online. Muitos dos que conseguem chegar à escola enfrentam viagens arriscadas já que as estradas estão em escuridão total.

“Uma vez que o trânsito e as luzes da rua não funcionam durante os apagões, a falta de luminosidade torna o exterior num verdadeiro caos, com todos a conduzir em direções distintas. Quando se acompanha os filhos às aulas e se regressa após o anoitecer, é necessário ter cautela por onde se caminha, já que pode ser na própria faixa de rodagem. A taxa de mortalidade de peões nas estradas tem aumentado”, declara Kateryna.

“Uma vez que o trânsito e as luzes da rua não funcionam durante os apagões, a falta de luminosidade torna o exterior num verdadeiro caos, com todos a conduzir em direções distintas […] A taxa de mortalidade de peões nas estradas tem aumentado”

Relato de uma ucraniana

“A educação é a base de uma sociedade funcional. No entanto, a Rússia está deliberadamente a visar infraestruturas civis na Ucrânia, mesmo as escolas. As crianças também não podem estudar à distância devido à falta de eletricidade e aquecimento. A Rússia está a comprometer o presente do país – e o seu futuro”, constata Denis Krivosheev.

 

A saúde e o bem-estar em risco

Além do impacto no setor educativo, estes ataques têm agravado a escassez alimentar, já que as constantes falhas de energia aceleram o apodrecimento dos alimentos.

“Há poucas opções para cozinhar. Alimentar uma criança com salsichas todos os dias é uma má prática, mas não se pode cozinhar a comida que gostaríamos, pois demora uma hora e meia a ficar pronta, por isso opto por cuscuz a vapor e salsichas”, esclarece Olena.

“Quando existe energia, é preciso realizar várias tarefas em simultâneo. É muito stressante. Carregar todos os aparelhos eletrónicos e encontrar tempo para fazer comida durante esse período. Não se pode relaxar. E por causa dessa necessidade, está-se constantemente em tensão, o que tem um efeito negativo”.

“Quando existe energia, é preciso realizar várias tarefas em simultâneo. É muito stressante. Carregar todos os aparelhos eletrónicos e encontrar tempo para fazer comida durante esse período”

Relato de uma ucraniana

 

Pressão adicional sobre os grupos marginalizados

As pessoas com deficiência, idosos e pessoas com rendimentos mais baixos enfrentam pressões adicionais geradas pelos cortes de energia.

Por exemplo, as pessoas com mobilidade reduzida debatem-se para conseguirem sair dos prédios ondem vivem, enquanto outros residentes decidiram packs de emergência em elevadores, caso alguém fique ali preso durante as falhas de energias, que incluem cadeiras, água e comida.

O impacto na saúde mental, bem como na saúde física, também pode ser devastador. Tetyana* relatou à Amnistia Internacional que existem pessoas que não se deslocam atualmente ao exterior: “Conheço pessoas que não vêm às ruas, porque não conseguem subir as escadas sem um elevador”.

“Conheço pessoas que não vêm às ruas, porque não conseguem subir as escadas sem um elevador”

Relato de uma ucraniana

Muitas pessoas com rendimentos mais baixos enfrentam dificuldades para aquecer as suas casas devido aos apagões, por não conseguirem suportar o custo de geradores, tanques de gás e aquecedores a gás, sem que lhes traga pressões financeiras acrescidas.

Contexto

Apesar das tentativas de reparação das infraestruturas civis danificadas, as autoridades ucranianas foram obrigadas a proceder a cortes de energia planeados para evitar que as restantes infraestruturas energéticas do país fossem sobrecarregadas. Em outubro de 2022, pelo menos 40% das instalações energéticas do país tinham sido seriamente danificadas. Em dezembro, as autoridades ucranianas disseram que mais de 50% da população no país tinha visto o seu fornecimento de electricidade ser cortado.

A Amnistia Internacional apela ao fim da agressão russa contra a Ucrânia e a que a comunidade internacional se lembre e apoie os civis ucranianos, com o início do inverno.

 

*Nomes alterado para proteger a identidade dos entrevistados.

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